No Dia Internacional da Mulher, o site da TVCA lembra a revista 'A Violeta', criada por mulheres no ínício do século XX.
Direito de igualdade, luta em campanhas educativas, culturais e políticas. Assuntos que hoje são colocados em discursos sobre o desempenho e conquistas da mulher, especialmente no Dia Internacional das Mulheres, não são novidades para as batalhadoras femininas de Mato Grosso. No início do século XX, um grupo em Cuiabá criava a revista ‘A Violeta’, feita por mulheres e para mulheres. Durante quase todo o tempo de sua publicação, as revistas tratavam direto e especificamente à mulher: a mulher esposa, mãe, namorada, filha, noiva, educadora, estudante, funcionária pública ou profissional liberal.
Nesse espaço criado para divulgação da cultura, os escritos, em grande parte, vinham de mulheres simples e lutadoras. Eram escritoras, professoras e donas de casa que revelavam nos textos tanto o universo de quem escreviam tanto para quem escreviam. Os homens, em geral políticos da época, só foram chamados ao diálogo em matérias em que solicitavam iniciativas para o progresso da região, ou reivindicavam posturas de igualdade entre homens e mulheres no trabalho, acesso a voto, e respeito à figura feminina.
Violeta' foi o único periódico de Mato Grosso dirigido e organizado por mulheres em uma grande abrangência temporal: de 1916 a 1950. No livro, ‘Sob o Signo de uma Flor – Estudo da Revista A Violeta, publicação do Grêmio Literários Júlia Lopes", a autora Yasmim Nadaf descreve que "a idéia de seu aparecimento surgiu de um grupo de jovens normalistas da ‘Escola Normal de Mato Grosso’, ligado a algumas senhoras e senhoritas simpatizantes da cultura e que desejavam a instalação de argumentação onde pudessem cultivar as ‘letras femininas e patrícias’. Sob o signo de uma flor frágil e modesta, nasceu ‘A Violeta’, em 16 de dezembro de 1916, em Cuiabá".
O ‘Grupo Literário Júlia Lopes’ foi criado em 26 de novembro de 1916, e no mês seguinte já circulava a 1ª edição de 'A Violeta'. No livro, Nadaf também pontua que o grêmio tinha como finalidade: promover o desenvolvimento intelectual das associadas, por meio de conferências, discussões de teses sobre assuntos cívicos, morais e instrutivos; manter a revista de publicação bimestral, desde que não tratasse de questões políticas, religiosa ou animosidades peculiares.
Mas a revista foi além do que propôs. 'A Violeta' foi política e se engajou em lutas educacionais sociais e de outras naturezas. O grêmio fomentou cultura e outras atividades sociais, educativas, filantrópicas, políticas e de saúde. A revista, que começou com publicações bimensais, passou a ser mensal e não se restringir apenas à literatura. Tratava de assuntos diversos: cartas, pequenos contos, composições poéticas, artigos jornalísticos. A temática se estendeu ao lirismo do amor, ao feminismo, à política, história, cultura, religião, moda para mulher, culinária, campanhas educativas, de higiene e de saúde, além de registros da sociedade local.
A revista não tinha sede própria em seu início. As reuniões eram nas casas das agremiadas ou em salões sociais ou de cultura da capital. A atuação dinâmica veio em 1928, com o surgimento do Clube Feminino, também dirigido por mulheres. O grêmio Júlia Lopes contou com a participação de mulheres de vários pólos da região. Na equipe fundadora e colocaboradora estão: Bernardina Rich, Maria Dimpina, Maria Müller, Maria da Glória de Figueiredo, Maria Ponce de Arruda, Amélia Lobo, Ana Luísa Prado, Maria Santos Costa e Leonor Borralho.
Maria Dimpina
Entre os nomes de destaque das criadoras e colaboras da revista está Maria Dimpina Lobo Duarte. Ela nasceu em Cuiabá no dia 15 de maio de 1891 e faleceu em 1966. Maria Dimpina foi a primeira aluna do colégio Liceu Cuiabano, onde até então só estudavam rapazes.
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Maria fez parte do grupo criador do Grêmio Literário Júlia Lopes, onde foi diretora redatora e efetiva colaboradora e se destacou na luta pelo voto feminino e outros direitos da mulher. Lutou pela construção de uma ferrovia para o norte de Mato Grosso e também por rodovias. Fez concurso para postalista dos Correios e Telégrafos obtendo o primeiro lugar entre os participantes de todo o Brasil, tornando-se a primeira funcionária pública federal do Estado de Mato Grosso.
No texto 'História e memória da Escola Municipal de Educação Básica Professora Maria Dimpina Lobo Duarte', de Mariana Sales da Cruz, a autora mostra a importância de Maria Dimpina. "Abrindo fronteiras e encorajando as mulheres da época a trilharem os mesmos caminhos, enfrentando e vencendo assim os preconceitos da sociedade machista da época". Também são autoras do trabalho Julianne dos Santos Silva e Marlene Gonçalves. Confira um texto de Maria Dimpina publicado na revista A Violeta, e reproduzida na publicação de Mariana Sales da Cruz:
Já vão bem longes os tempos em que se cogitava de educar a mulher apenas para o lar.
Instruída era aquela que completava o curso primário findo o qual, ou em o próprio lar ou fora dele, aprendia a confeccionar roupas, a fazer os serviços de copa, cozinha, enfim, todos os que dizem respeito ao interior da casa, cujo governo lhe era destinado ou por força de casamento, ou, se ficasse solteira, como administrado domestica em casa dos pais ou parentes com quem fosse obrigada a residir.
Desapareceu completamente essa nora educativa e, de um momento para outro, viemos deparar com um outro sistema que forma a mulher moderna, a que concorre com o homem para os cargos públicos, a que enfrenta os concursos das repartições, a que, enfim, cursando escolas superiores, conquista altas colocações na sociedade, o que, no entanto, a prática já demonstrou, não dirime as funções que lhe são atinentes de esposa e mãe porque o coração dita leis às quais o cérebro se suborna. (DIMPINA, Maria. "Educação domestica". A Violeta 327, 328: 5 Jan. e fev. de 1946).